Após anos de estrada, militância cultural e construção coletiva, a banda juiz-forana Valla lança, nesta sexta-feira (10), seu primeiro álbum de estúdio, ”Revolução Campo-Cidade”. O trabalho chega às plataformas digitais reunindo nove faixas autorais que dialogam com questões sociais, políticas e afetivas presentes no cotidiano da classe trabalhadora brasileira, especialmente a partir das vivências do interior de Minas Gerais e dos movimentos populares. O lançamento será celebrado com um show especial no domingo, durante o festival Dominikaos, realizado no Beco da Cultura, em Juiz de Fora.
Formada em 2019, a Valla surgiu com a proposta de produzir um punk rock autoral conectado às lutas sociais e às experiências concretas da população trabalhadora. Desde então, a banda vem construindo sua trajetória de forma independente, participando de festivais, ocupações culturais, encontros populares e eventos ligados a movimentos sociais em Minas Gerais e outros estados.
Mais do que um álbum conceitual, ”Revolução Campo-Cidade” nasceu das experiências vividas pela banda durante os últimos anos, especialmente a partir da atuação junto ao projeto Plantio Solidário, realizado em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) durante a pandemia. O contato com o assentamento Denis Gonçalves, o trabalho de distribuição de alimentos e a aproximação entre campo e cidade transformaram não apenas a atuação política dos integrantes, mas também a identidade artística da Valla.
“O álbum surge da forma mais orgânica possível, da mesma forma como a própria banda surgiu: dentro de contextos políticos, da necessidade de gritar, de extravasar e mostrar nossas insatisfações para além dos espaços comuns que construímos”, conta Laiane Araújo, vocalista da Valla.
Temas políticos
As músicas foram surgindo à medida que acontecimentos políticos, sociais e pessoais atravessavam a vida dos integrantes. O resultado é um disco que aborda temas como reforma agrária popular, precarização do trabalho, maternidade, saúde mental, invisibilidade do trabalho doméstico, impactos da pandemia, desigualdade social, machismo, sexismo e os desafios enfrentados pela população trabalhadora.
Ao mesmo tempo, o álbum também exalta a força dos povos latino-americanos, a solidariedade entre campo e cidade, a organização coletiva e a esperança como ferramenta de transformação social.
Produzido de forma independente pela própria Valla em parceria com Guilherme Melich, o álbum foi gravado ao longo de aproximadamente quatro meses no Estúdio Rise Together. A sonoridade amplia as referências tradicionais do punk rock ao incorporar elementos da cultura popular mineira e latino-americana, criando uma identidade própria dentro da cena.
Tambor mineiro, xequerê, sanfona, viola caipira, trompete e até enxadas utilizadas como instrumentos de percussão aparecem ao longo do disco, dialogando diretamente com as experiências que inspiraram sua criação.
Conexão com o território
A proposta da Valla não é apenas dialogar com a tradição do punk rock, mas também aproximá-la das referências culturais que fazem parte da vida de seus integrantes. A presença da viola caipira, da sanfona, dos tambores, das enxadas e de outros elementos da cultura popular mineira ajuda a construir uma sonoridade que conecta o álbum ao território onde ele nasceu.
“A gente queria incorporar ao punk rock elementos da nossa história, da nossa cultura e das nossas famílias. A viola caipira, a sanfona, os tambores, a terra, tudo isso faz parte de quem somos e da forma como entendemos o mundo”, explica Laiane.
Participações especiais
O disco conta com participações especiais de Raphael Fortes Marcomini (sanfona), Victor Hugo (viola caipira), Driko Piu-Piu (trompete), além de um coral guerrilheiro formado por Victor Polato, Amanda Muniz, Luan Carlos, Maria Eduarda Pessanha Barbosa, Clarice Amieiro e Joãozinho.
Uma das faixas mais emblemáticas do álbum é “Revolução”, que reúne viola caipira, punk rock e um coral infantil formado por Virgínia Araújo, Júlia Halfeld, Heloísa Maia Miranda e Antônia Maia Lopes. A música nasceu a partir das experiências vividas pela banda junto às crianças do assentamento Denis Gonçalves durante as ações do Plantio Solidário.
Entre os momentos mais marcantes das gravações está justamente a participação dessas crianças no estúdio. Para recebê-las, a banda preparou um café da manhã especial com chocolate quente, bolo e lembranças confeccionadas artesanalmente. O encontro se tornou um símbolo do espírito coletivo que atravessa todo o trabalho.
A esperança também aparece na própria capa do álbum. A imagem retrata Maria Flor, filha de uma companheira que a banda conheceu durante as ações do Plantio Solidário. A escolha reforça uma das mensagens centrais do disco: a crença de que a transformação social passa necessariamente pelas novas gerações e pela construção coletiva de futuro.
Construção coletiva
Para a banda, o lançamento representa mais do que a chegada do primeiro álbum. É o resultado de anos de dedicação de diferentes pessoas que passaram pela formação da Valla, contribuíram para sua construção artística e ajudaram a manter vivo um projeto independente que sempre buscou unir música, ação social e compromisso político.
A formação responsável pela gravação do álbum contou com Laiane Araújo (vocal), Marte Oliveira (bateria), Fabio Vianna (baixo) e Fernanda Halfeld (guitarra), músicos que participaram diretamente do processo de composição, arranjos e gravação das canções.
Ao longo da trajetória, a Valla já participou de importantes eventos da cena independente, dividindo espaços com bandas nacionais e internacionais e marcando presença em festivais como Dia de Rock, Metalpunk Overkill e Gobierno No!, além de apresentações em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A banda também integra a construção do Dominikaos, um dos principais festivais underground de Juiz de Fora, dedicado ao fortalecimento da música independente e da produção cultural local.
Mais do que um lançamento musical, Revolução Campo-Cidade reafirma o compromisso da Valla com a cultura popular, a organização coletiva e a construção de novas formas de resistência através da arte.
“Espero que as pessoas entendam que o punk também é terra, que o punk também é de Minas Gerais, que o punk também luta pela reforma agrária, que o punk também tem útero, tem filho, tem terra grudada nas unhas. O punk é uma imensa possibilidade de expressão”, defende Laiane.
Serviço
Lançamento do álbum Revolução Campo-Cidade
Data: 10 de julho de 2026
Disponível em todas as plataformas digitais
Show de lançamento
Data: 12 de julho de 2026
Horário: 15h
Evento: Dominikaos
Local: Beco da Cultura (entre o CCBM e a Biblioteca Municipal Murilo Mendes)