No dia 22 de abril de 1888, menos de um mês antes da abolição da escravatura, foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Juiz de Fora, responsável por celebrar, na cidade, o Reinado do Rosário com seus tambores, coroações, rezas e danças. Essas festas eram fundamentais para a convivência, a memória e o fortalecimento das tradições afro-brasileiras entre os escravizados e seus descendentes.
Foram também essas festas que ajudaram a viabilizar a construção da Capela do Rosário, erguida onde hoje se encontra a igreja dedicada à mesma padroeira, no bairro Granbery. Embora o terreno tivesse sido doado à confraria, a obra só seria concluída em 1905, já com forte interferência da elite local e finalização arquitetônica da Companhia Pantaleone Arcuri. Na inauguração, os irmãos negros do Reinado do Rosário – aqueles que sustentaram a construção com fé, trabalho e festa – já não estavam presentes.
Após mais de um século de apagamento, o Reinado do Rosário voltou oficialmente às ruas de Juiz de Fora em 2024, com o 1º Encontro de Congadas da cidade, realizado por iniciativa da Associação Ingoma de Democratização e Preservação do Patrimônio Cultural Material e Imaterial. O evento marcou um retorno histórico. E agora, em 2025, o movimento se amplia com o 2º Encontro de Congadas, que será realizado nos dias 22 e 23 de novembro, reafirmando a presença das culturas reinadeiras no território urbano e o compromisso do Ingoma em promover a circulação de saberes, a troca entre guardas congadeiras e o fortalecimento de, memórias e tradições que sempre existiram, mas foram silenciadas.
A proposta permanece a mesma: criar espaço de convivência, memória e celebração, fortalecendo a presença das culturas negras que moldaram o estado e reconhecendo o papel dos Congados como guardiões de fé, música, dança e comunidade. Em 2025, o encontro toma para si, mais uma vez, o princípio d’O Passo, método usado pelo Ingoma em suas aulas de tambor mineiro: avançar, recuar, retomar – dois para a frente, dois para trás, para então avançar de novo – como gesto de memória e continuidade. Ao reunir cortejos, instrumentos, cantos e danças, o evento reafirma que Juiz de Fora não só recebe de volta o Rosário: devolve-lhe a praça, o corpo e o tambor.
Guardas participantes e programação cultural
Serão dois dias de encontro, com uma rica programação musical e cultural, além do cortejo e da bênção dos ternos participantes. Estão confirmadas guardas de Congo, Moçambique e tradições irmãs, vindas de diferentes regiões do estado, incluindo:
• Congada e Moçambique de Ibertioga
• Moçambique Nossa Senhora Aparecida de Passa Tempo
• Moçambique Nossa Senhora do Rosário de Passa Tempo (Quilombo dos Marianos)
• Moçambique de Nossa Senhora do Rosário de Timóteo
• Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande
• Guarda de Congo Rosário da Aliança de Brás Pires
• Banda de Congo José Lúcio Rocha de Airões
• Banda de Congada de Nossa Senhora do Rosário de Missionário Alto Rio
• Sociedade Ubaense de Congados Nossa Senhora do Rosário de Ubá
• Banda Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Cipotânea
• Banda de Congado Nossa Senhora Aparecida de Conselheiro Lafaiete
• Associação Projeto União do Morro – “Som do Tambor”
• Congada de Divinésia
• Grupo de Jongo de Bias Fortes
• Folia de Reis Estrela Guia de Piau
• Banda Nossa Senhora do Rosário de Senhora dos Remédios
• Pilão de Nhá, de Rio Novo
Programação
Sábado – 22/11 (Dia Cultural)
Praça da Estação
• 12h – DJ Marcelo Castro
• 14h – Jongo e Caxambu com Makamba
• 15h – Parangolé Valvulado
• 16h – Bizarra Bateria
• 17h – Samba do Mato
• 18h – Pereira da Viola
• 19h – Ingoma e Bloco
• 20h30 – Silva Soul
Domingo – 23/11 (Dia das Guardas)
Praça Antônio Carlos → Cortejo → Praça da Estação
• 9h – Chegada e concentração das guardas (Praça Antônio Carlos)
• 10h – Cortejo das guardas rumo à Praça da Estação
• Bênção (após o cortejo, na Praça da Estação, celebrada pelo padre Vanderlei Santos de Sousa, padre negro e de família reinadeira, atualmente diretor das Rádios da Fundação Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida /SP)
• 11h às 14h30 – Apresentações das guardas na Praça da Estação
• 15h – Maurício Tizumba e Ingoma (encerramento)
Ingoma: 16 anos de trabalho e reconhecimento patrimonial
Mais do que uma realização, o encontro é a materialização de um sonho do Ingoma, grupo que há 16 anos constrói relações de amizade, pesquisa e irmandade com congadeiros e moçambiqueiros em todo o estado. Foi justamente por causa dessa caminhada, feita de presença, respeito e troca, que o grupo foi oficialmente reconhecido, em junho deste ano, como detentor dos Caminhos, Expressões e Celebrações do Rosário em Minas Gerais, concedido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG).
O certificado foi entregue, em 1º de junho, pelo capitão Luís Fabiano, do Moçambique de Nossa Senhora do Rosário de Timóteo, durante o Grande Encontro Estadual de Congadeiros em Honra ao Divino Espírito Santo – Regional Leste, ocorrido na cidade de Timóteo. O município é território de forte tradição congadeira, e foi lá, entre capitães e guardas de diversas regiões, que o Ingoma soube de sua inclusão no Cadastro do Patrimônio Cultural de Minas Gerais. A entrega no próprio contexto reinadeiro reforça que o reconhecimento não nasce apenas de instâncias formais, mas brota de dentro da vivência dos Reinos do Rosário.
Apoios
O 2º Encontro de Congadas de Juiz de Fora conta com patrocínio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult), da Prefeitura de Juiz de Fora – por meio da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa) e da Secretaria de Turismo (Setur) –, de parlamentares e de parceiros culturais diversos. O Ingoma divulgou em sua página no Instagram (@ingoma_ingoma) a lista completa de patrocinadores e apoiadores.