Na próxima quarta-feira (12) será celebrado o Dia Internacional e Municipal do Hip-Hop, data que precisa, mais do que nunca, ser reverenciada, mas cuja comemoração, este ano, vem carregada de um sentimento agridoce. É o primeiro Dia do Hip-Hop sem a presença física de Adenilde Petrina Bispo, essa mulher que foi liderança comunitária, comunicadora popular, professora e militante incansável da cultura hip-hop. No caso de pessoas como Adenilde, contudo, morte não é sinônimo de ausência, porque ela permanece. Sua voz, suas ideias e sua presença continuam vivas na memória, nas ações e nos corpos transformados por sua trajetória. E, portanto, o brado desta quarta-feira será o de “Adenilde presente!”. Porque ela está.
A celebração, organizada pelo próprio movimento hip-hop na cidade, vai acontecer no Mercado Cultural AICE, a partir das 19h, e carrega consigo um forte simbolismo. Não apenas porque o espaço recebeu o nome do MC AICE, rapper fundamental para a história do hip-hop juiz-forano, mas porque sua ocupação pelas Quartas do Hip-Hop foi um projeto sonhado, idealizado e realizado por Adenilde. Desde a inauguração do mercado, as quartas tornaram-se o dia da cultura hip-hop no espaço. E, por isso, realizar a celebração nesse dia e nesse lugar é mais do que uma homenagem. É reafirmar a presença viva de Adenilde, em cada batida e em cada palavra que ecoa naquele palco.
Legado vivo
Entre as pessoas que trilham o caminho que ela abriu está Alessandro Rodrigues, o Zói, arte-educador popular e assessor da Funalfa que conviveu e trabalhou com Adenilde por 30 anos. Ele lembra que tudo começou entre o fim da infância e o início da adolescência, quando a rádio comunitária Mega FM, no Bairro Santa Cândida, se tornou o seu ponto de virada.
“Eu morava no bairro dela e estava passando por aquela fase difícil da juventude na periferia. Quando a gente chega ali nos 13, 14, 15 anos, sem muita perspectiva de vida, é fácil se perder. Ela me abraçou, me levou pra rádio e me apresentou a cultura hip-hop. Disse que era a cultura da transformação dentro das periferias. E foi isso que aconteceu. Ela me transformou. Me salvou.” Mas Zói gosta de dizer que não é a cultura hip-hop que salva, é o conhecimento. “Ela levava a gente pra biblioteca, fazia grupo de estudo, falava que sem conhecimento o povo da periferia é descartado. O hip-hop é movimento, é resistência, é cultura e é identidade. É o que ela sempre dizia.”
Hoje, Zói segue o legado de Adenilde na Funalfa, na Assessoria Especial para Interlocução e Valorização da Cultura Popular, mais um dos espaços onde ela semeou transformação. Ele continua, por exemplo, o trabalho de visitas ao Centro de Educação de Jovens e Adultos Doutor Geraldo Moutinho (CEM), onde tem desenvolvido ações com estudantes em torno da cultura hip-hop. O projeto está em andamento e vai culminar numa apresentação no dia 29 de novembro.
A continuidade do trabalho desenvolvido por Adenilde na Funalfa desde janeiro deste ano também é assegurada pelo diretor-geral da Fundação, Rogério Freitas. “Quando a professora Adenilde aceitou o convite para compor a equipe da Funalfa, ficamos muito animados, pois tínhamos certeza de que sua luz nos traria muita sabedoria. Isso se constatou nesses 11 meses de convivência. Seu legado permanece e continuará nos animando a compreender e acolher a cultura hip-hop”, afirma Rogério.
Com o baque da morte da mentora e amiga, Zói chegou a ter um momento de desânimo, mas a força de 30 anos de atuação coletiva o fez desistir de desistir. “Mesmo quando pensei em parar, minha mãe e meu pai me lembraram que esse é o nosso trabalho: o de transformar os jovens. A Dê sempre dizia que a gente precisa pegar a base nas periferias, antes que os meninos cheguem no sistema socioeducativo. É lá que tudo começa. Então esse é o legado: estudar, trocar ideia e multiplicar”, defende. “A gente tem que continuar o legado, levar isso pra frente, investir nas crianças, nos jovens e na nossa juventude, que é o nosso futuro.”
Serviço:
Evento: Dia Internacional e Municipal do Hip Hop
Data: 12/11 (quarta-feira)
Horário: 19h
Local: Mercado Cultural AICE (Rua Doutor Paulo Frontin, 170, Centro – segundo piso do Mercado Municipal)
Programação:
19h – DJ Paulo É
19h30 – Marcelo Paulista e Lucius Thug
19h50 – DJ Paulo É + B. Boys
20h – Vídeo em homenagem a Adenilde Petrina
20h20 – Zebu e Jullyo Mallone
20h40 – DJ Paulo É
20h50 – Slam de Perifa + Pri Moreira