Em 2024, depois de tantos anos dedicados a fazer florescer a arte nos outros, Toninho Dutra voltou à cena como ator, diretor e dramaturgo, pisando, como artista, no palco do Paschoal Carlos Magno, cuja construção ele mesmo ajudou a retomar. Como quem reencontra uma parte essencial de si, ele reencarnava o homem de teatro do qual tudo mais nasceu. Mais que um retorno, era a reafirmação de uma vida inteira guiada pela sensibilidade, pela escuta e pelo compromisso profundo com a cultura.
Hoje, a cidade se despede de Toninho com um silêncio triste, desses que só existem quando parte alguém que ajudou a construir tanto do que somos.
Artista de vocação incontornável, Toninho foi também um formador generoso. No CAIC de Santa Cruz, ensinou teatro a incontáveis jovens. A técnica teatral, sim, mas principalmente o teatro como linguagem, como encontro, como ferramenta de transformação e como possibilidade de existência. Muitos dos que hoje ocupam os palcos e os bastidores da cidade carregam, de alguma forma, sua marca: um gesto, um olhar, uma coragem.
À frente da Funalfa, exerceu uma gestão rara, que atravessou três administrações, de três prefeitos diferentes, e que angariou uma relação de confiança com a classe artística. E isso se deve à sua capacidade de diálogo, de respeito e de compreender a cultura como um bem coletivo, vivo e indispensável. É dele, por exemplo, a criação do Programa Gente em Primeiro Lugar, ainda hoje a principal política pública estruturante na área cultural em Juiz de Fora.
É por isso que a trajetória de Toninho é dessas que vai além de cargos ou funções, se espalhando pelas salas de ensaio, pelos palcos, pelas políticas públicas que ajudou a consolidar, pelas pessoas que transformou e pelas quais também foi transformado.
“Recebemos todos com muita tristeza a notícia da passagem do Toninho Dutra. Um dos grandes nomes da cultura da nossa cidade. Um grande amigo. Conheci o Toninho no ensino médio, no antigo CTU, onde junto com um grupo incrível de alunos levamos adiante o grupo de teatro da escola, o GATTU. Essa convivência definiu uma amizade, dessas que fica para a vida toda. Entre os delírios e sonhos do início de nossa juventude ficava a certeza de que o caminho dele não poderia mais ser dissociado do teatro, arte que ela produziu, atuou e amou por toda vida”, emociona-se o atual diretor-geral da Funalfa, Rogério Freitas.
“Volta e meia a vida nos aproximava, quase trabalhamos juntos no Projeto Trilhos da Paz. Acompanhei com atenção seu belíssimo trabalho a frente do CAIC Santa Cruz, uma inspiração. Depois veio a Funalfa, um esmero de gestão reconhecido por todos. Dirigiu a Funalfa com a mesma energia que dedicava a todas as produções que ele dirigiu e atuou. A cidade te agradece, Toninho. Vá em paz, velho amigo!”
A gerente do Departamento de Captação e Fomento da Funalfa, Tamires Fortuna, que trabalhou com Toninho desde seu tempo de estagiária na Fundação, também expressou seu pesar. “Toninho teve uma trajetória marcada por sua relevância, dignidade e contribuição inestimável à cultura de Juiz de Fora. Sua presença não apenas ocupou espaços, ela transformou realidades, inspirou caminhos, ensinou pelo exemplo e deixou marcas profundas na história e na vida de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la”, afirma Tamires.
“Sua ausência é sentida com pesar e muita saudade, mas seu legado permanece vivo, ecoando em cada gesto, em cada conquista e em cada memória construída ao longo de sua jornada.”
Essa dor mostra que a Funalfa perde hoje não apenas um ex-superintendente, mas um de seus pilares humanos e simbólicos. A cidade perde um de seus grandes articuladores da cultura. E o teatro perde um de seus homens mais apaixonados.
Fica, no entanto, aquilo que não se apaga: a presença delicada e firme de Toninho em tudo o que ajudou a criar. Nos corpos que seguem em cena, nas ideias que continuam circulando, nos espaços que ele ajudou a sustentar, seu trabalho permanece pulsando.
Neste momento de dor, a Funalfa se une aos familiares, amigos, alunos e a toda a classe artística, reconhecendo e agradecendo profundamente pela vida de Toninho Dutra. Como todo homem de teatro, ele não sai de cena. Toninho Dutra permanece, de alguma forma, em cada luz que se acende.